Configurar a rede de um servidor Linux pelo modo texto assusta quem está começando — mas hoje leva menos de 5 minutos com as ferramentas certas. Este guia mostra o passo a passo completo no CentOS, Rocky Linux e AlmaLinux: descobrir as interfaces, definir IP estático ou DHCP, configurar DNS e rota padrão, testar tudo antes de sair do lugar e evitar o erro clássico que isola um servidor remoto (sem console físico por perto).
É a versão escrita e atualizada do vídeo original deste post (continua aqui embaixo, na seção "Prefere ver em vídeo?") — mantido para quem aprende melhor assistindo.
Antes de começar: 3 avisos que evitam dor de cabeça
- Se o servidor é remoto (VPS, nuvem ou máquina em outra sala), abra a sessão do console da VM ou tenha alguém físico perto da máquina antes de mexer no IP. Um endereço digitado errado derruba sua conexão na hora — e sem console você fica trancado para fora.
- Descubra qual sistema você tem de verdade. O CentOS 7 chegou ao fim do suporte em junho de 2024 (EOL). O CentOS 8 migrou para o modelo "Stream". Os sucessores diretos são Rocky Linux e AlmaLinux — todos usam exatamente as mesmas ferramentas deste guia (NetworkManager +
nmcli). Rodecat /etc/os-releasepara confirmar. - Faça um snapshot ou backup se o servidor for de produção. As mudanças aqui são seguras, mas engano de digitação acontece com todo mundo.
Passo 1 — Veja como a rede está agora
Antes de mudar qualquer coisa, entenda o estado atual. Três comandos bastam:
ip a # mostra as interfaces de rede e os IPs atuais
ip r # mostra a tabela de rotas (inclui o gateway padrão)
nmcli device status # diz quais interfaces o NetworkManager conhece
Você verá interfaces como eth0, ens33, enp1s0 — o nome varia, o conceito é o mesmo. Anote em um bloco: nome da interface, IP atual, gateway e DNS. Se a interface já tem IP e funciona, talvez você só queira tornar a configuração fixa.
Passo 2 — Configure o IP estático com nmcli (forma moderna)
O nmcli é a ferramenta oficial do NetworkManager e funciona igual no CentOS 7, Stream 8/9, Rocky e AlmaLinux. Substitua os valores pelos do seu ambiente (o exemplo usa a rede 192.168.1.0/24 comum em roteadores):
nmcli connection modify "System eth0"
ipv4.method manual
ipv4.addresses 192.168.1.10/24
ipv4.gateway 192.168.1.1
ipv4.dns "1.1.1.1 8.8.8.8"
nmcli connection up "System eth0"
Detalhes que costumam travar iniciantes:
- O nome da conexão (entre aspas) não é necessariamente o nome da interface. Descubra com
nmcli connection show— pode serSystem eth0,Wired connection 1,ens33etc. - A máscara vai junto do IP no formato CIDR:
/24equivale a 255.255.255.0. Para /23, /25 etc., o número muda — confira a do seu segmento. - Os DNS vão entre aspas separados por espaço — vírgula aqui é erro clássico.
Confirme que subiu: ip a deve mostrar o novo IP na interface e ip r deve ter uma linha default via 192.168.1.1.
Passo 3 — Alternativa sem decorar comando: o nmtui
Se prefere telas em modo texto, o nmtui abre um menu visual simples:
- Rode
nmtuino terminal. - Entre em Editar uma conexão → selecione a interface → EDITAR.
- Mude CONFIGURAÇÃO IPv4 de Automático para Manual, e em Endereços preencha IP/máscara e gateway.
- Em Servidores DNS, digite os DNS separados por vírgula (aqui a vírgula é permitida — é o campo do formulário, não o comando).
- Confirme, volte e use Ativar uma conexão para aplicar (ou rode
nmcli connection up "nome").
O resultado é exatamente o mesmo do Passo 2 — o nmtui apenas escreve as configurações do NetworkManager para você.
Passo 4 — O caminho legado: /etc/sysconfig/network-scripts
Servidores CentOS 7 antigos (e o conteúdo mais velho da internet) usam o arquivo /etc/sysconfig/network-scripts/ifcfg-eth0. Ele ainda funciona no CentOS 7 e é lido pelo NetworkManager. Um exemplo de IP estático:
TYPE=Ethernet
BOOTPROTO=none
NAME=eth0
DEVICE=eth0
ONBOOT=yes
IPADDR=192.168.1.10
PREFIX=24
GATEWAY=192.168.1.1
DNS1=1.1.1.1
DNS2=8.8.8.8
Aplique com nmcli connection reload && nmcli connection up eth0. Prefira o nmcli (Passo 2) em máquinas novas: o formato ifcfg está sendo descontinuado nas distribuições atuais (keyfiles em /etc/NetworkManager/system-connections/ são o futuro).
Passo 5 — Voltar para DHCP (rede com IP automático)
Em laboratório, redes domésticas ou quando o servidor muda de rede, DHCP é mais prático:
nmcli connection modify "System eth0" ipv4.method auto
nmcli connection up "System eth0"
O servidor passa a receber IP, gateway e DNS do roteador automaticamente. Rode ip a depois para ver o endereço concedido.
Passo 6 — Hostname e DNS: o que editar e o que NÃO editar
Duas confusões clássicas de quem configura rede no Linux:
- Não edite
/etc/resolv.confna mão em sistemas com NetworkManager: ele reescreve o arquivo a cada reinício e sua mudança some. DNS se configura vianmcli(Passo 2) ou nmtui — aí sim fica permanente. - Hostname se muda com
hostnamectl set-hostname servidor01— e vale conferir se/etc/hoststem uma linha apontando o novo nome para 127.0.0.1, senão alguns serviços demoram a subir.
Passo 7 — Teste na ordem certa (e saiba o que falhou pelo resultado)
ping -c 4 192.168.1.1 # 1º: o gateway (roteador) responde?
ping -c 4 1.1.1.1 # 2º: IP externo puro (sem DNS) atravessa?
ping -c 4 google.com # 3º: nomes estão resolvendo?
A leitura dos resultados:
- Falha no 1º: problema local — cabo, VLAN, IP fora do segmento da rede ou interface desligada (
nmcli device connect eth0). - 1º OK, 2º falha: gateway/roteador não está roteando para fora — confira se o gateway configurado é o IP real do roteador.
- 1º e 2º OK, 3º falha: é DNS — revisão no Passo 6.
Firewall: libere a porta que o serviço precisa
Depois de configurar a rede, se o servidor hospeda um serviço (site, banco, acesso remoto), o firewall padrão do CentOS/Rocky/Alma (firewalld) precisa saber que a porta pode passar:
firewall-cmd --list-all # vê o estado atual
firewall-cmd --permanent --add-port=80/tcp # libera HTTP
firewall-cmd --reload # aplica
Serviços conhecidos têm nome próprio: firewall-cmd --permanent --add-service=http, --add-service=ssh etc.
Manutenção de servidor: o próximo passo depois da rede
Com a rede estável, o servidor passa a exigir rotina: logs crescem, discos enchem, certificados expiram. Para manter o servidor Linux saudável sem dor de cabeça, o portal tem um guia complementar de como liberar espaço em disco com segurança — a manutenção nº 1 depois que a rede está no ar.
E se a ideia é administrar essa máquina sem monitor físico, os guias de acesso remoto do portal completam o cenário: acesso remoto com UltraVNC (multiplataforma, com tela) e conexão remota RDP no Windows. Ainda em dúvida se Linux é a escolha certa para o seu caso? Veja o comparativo honesto Windows ou Linux.
Prefere ver em vídeo?
O vídeo original que tornou este post referência continua válido para a base do procedimento:
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre CentOS, Rocky Linux e AlmaLinux?
CentOS era a versão gratuita (e idêntica) do Red Hat Enterprise Linux. Com o fim do CentOS tradicional, a comunidade e as empresas criaram os clones Rocky Linux e AlmaLinux — mesma base, mesmo comportamento, suporte de anos. Tudo que funciona em um funciona nos outros, incluindo este guia.
Configurei o IP errado e perdi o acesso remoto ao servidor. E agora?
A reconexão só volta pelo console real: tela e teclado na máquina, console da VM no painel da nuvem, ou IPMI/iDRAC/iLO em servidores físicos. Por isso o Passo 1 sempre começa anotando a configuração atual — e em servidor remoto o ideal é testar o novo IP em uma conexão temporária antes de salvar como permanente.
O arquivo /etc/resolv.conf volta ao original toda vez que reinicio. Por quê?
Porque o NetworkManager o gera automaticamente a partir das configurações da conexão. A edição permanente é feita com nmcli connection modify ... ipv4.dns (Passo 2) ou pelo nmtui — nunca editando o arquivo direto.
Como faço a placa de rede subir sozinha quando o servidor liga?
No método ifcfg, é a linha ONBOOT=yes. No nmcli, conexões do tipo Ethernet já sobem automaticamente; se não subir, verifique nmcli connection show e o estado do link físico em nmcli device status (cabo/VLAN).
ping no IP funciona, mas nenhum site abre pelo nome. O que é?
É DNS: a máquina alcança a internet, mas não traduz nomes em endereços. Revise os DNS da conexão (Passo 2/6) e teste com ping 1.1.1.1 vs ping google.com — o primeiro sem o segundo confirma o diagnóstico.